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A indústria de petróleo e gás entra em um novo ciclo marcado por desafios estruturais e efeitos da instabilidade

Investimentos em Inteligência Artificial e Inteligência Artificial Generativa são priorizados para aplicações práticas que trazem ganhos de produtividade


A indústria de petróleo e gás no Brasil entra em um novo ciclo marcado por desafios estruturais e efeitos da instabilidade no cenário internacional, mas também pelo impulsionamento da digitalização, pela busca por maior eficiência operacional e pelo avanço dos combustíveis de baixo carbono, conforme aponta o estudo global “2026 Oil & Gas Outlook”, da Deloitte. Algumas tendências globais observadas ajudam a antecipar caminhos que ganham força no mercado brasileiro, ainda que adaptadas às características próprias da exploração e economia do país.

Conforme o anuário Estatístico Brasileiro do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis 2025, da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), as reservas totais de petróleo no país atingiram a marca de 29,2 bilhões de barris em 2024, o que representa um crescimento de 6% na comparação com o ano anterior. Contudo, em 2024 a produção nacional de petróleo teve queda de 1% em relação a 2023, com 3,4 milhões de barris ao dia, o que reflete o cenário global de crescimento mais lento e até de redução da produção em alguns países. O uso do gás natural segue relevante com crescimento de 5,1% nas reservas, que totalizaram 740,5 bilhões de m³ no Brasil, em 2024.

Nesse contexto, as empresas buscam eficiência operacional, apostando sobretudo em avanços tecnológicos. Um dos principais vetores de transformação do setor é o uso de inteligência artificial (IA) e inteligência artificial generativa (GenAI). As empresas que já vinham apostando nessas tecnologias, inclusive no Brasil, passam a focar os investimentos em resultados operacionais práticos, conforme analisa o estudo. “Agora, a prioridade é ver soluções de IA e GenAI se materializarem em aplicações, integradas ao dia a dia das operações, com ganhos claros de produtividade, redução de tempo, melhoria da tomada de decisão e aumento da efetividade dos ativos”, explica Luiz Rubião, sócio-líder para o setor de energia da Deloitte.

O estudo da Deloitte aponta que os governos podem alavancar o uso da IA e GenAI por meio de políticas públicas e apoio em investimentos, e que o Brasil precisa coordenar esforços para intensificar o uso dessas tecnologias. Enquanto nos Estados Unidos os investimentos ocorrem de forma estruturada e em escala, no Brasil eles ainda são majoritariamente isolados, conduzidos empresa a empresa, com iniciativas conjuntas e colaborativas ocorrendo ainda de forma tímida.

A performance de ativos se consolida como um tema central para as companhias brasileiras. Com ativos envelhecendo e margens pressionadas, cresce a necessidade de adotar operações digitalmente habilitadas, capazes de antecipar falhas, reduzir paradas não programadas e proteger a rentabilidade. Experiências internacionais mostram que o uso da manutenção preditiva e prescritiva, com sensores inteligentes, drones, robótica para inspeções automatizadas e análises em tempo real, pode reduzir significativamente falhas em equipamentos e gerar economias relevantes. As primeiras empresas que adotaram esses sistemas relataram até 40% menos falhas de equipamento e economias anuais de US$ 10 milhões, conforme o estudo da Deloitte. Assim, a adoção dessas tecnologias se torna um diferencial competitivo em um cenário de crescimento mais lento da produção.

A transformação digital avança, ainda, para além dos ativos físicos, conectando equipes e redefinindo a forma de trabalho. Plataformas digitais apoiadas por IA permitem acelerar o treinamento, a retenção de conhecimento e o engajamento de uma força de trabalho majoritariamente técnica e mecânica. Ao mesmo tempo, a ampliação da conectividade em áreas remotas, como operações offshore, viabiliza o uso de dados em tempo real e centros de controle integrados, elevando a confiabilidade operacional.

“A adoção acelerada de tecnologias digitais e a busca por escala podem impulsionar movimentos de consolidação e novas parcerias entre empresas de energia, tecnologia e outros setores. Para o Brasil, o equilíbrio entre eficiência operacional, inovação tecnológica e avanço consistente na agenda de combustíveis renováveis será decisivo para manter a competitividade”, analisa Rubião.

Outra tendência global para o setor de petróleo e gás, com grande potencial para o Brasil, é o desenvolvimento de combustíveis sustentáveis. Diante da instabilidade do cenário internacional, da volatilidade de preços e da pressão pela descarbonização do planeta, o desenvolvimento de combustíveis sustentáveis tornou-se estratégico para a resiliência do setor de petróleo e gás. “Ao investir em alternativas como biocombustíveis, as empresas ampliam seu portfólio energético, reduzem riscos associados à dependência exclusiva de fósseis, criam novas fontes de receita, possibilitam adaptação gradual e segura à transição energética e fortalecem sua licença social para operar”, ressalta o sócio da Deloitte.

O Brasil tem conseguido avanços concretos na produção e uso de combustíveis renováveis. A aprovação da Lei do Combustível do Futuro (Lei Federal n.º 14.993/2024) criou incentivos para a substituição de combustíveis fósseis por alternativas renováveis, estimulando o uso de biometano, etanol e biodiesel, que ganham espaço crescente nas misturas obrigatórias à gasolina e ao diesel. A nova legislação também estabelece bases importantes para o desenvolvimento do combustível de aviação sustentável (SAF), fundamental para a descarbonização do setor aéreo.

“A experiência internacional mostra que políticas públicas e incentivos têm papel decisivo na viabilidade econômica de combustíveis renováveis e na reconstrução do downstream, especialmente em um contexto de volatilidade de margens e custos. No Brasil, a combinação da capacidade agrícola, indústria e arcabouço regulatório pode fortalecer a resiliência do setor e atrair novos investimentos”, afirma o sócio da Deloitte.

O impacto econômico já é expressivo: conforme o anuário 2025 da ANP, a produção de biodiesel cresceu 20,4% em 2024 e a produção de etanol aumentou 4,2%, com 37 bilhões de litros. A lei também contribui para acelerar o investimento em inovação e tecnologia no setor de combustíveis. “Já existe o desenvolvimento do biodiesel 100% renovável, por exemplo, o que demonstra que o país tem potencial para se tornar referência e avançar na redução da pegada de carbono, alinhando crescimento econômico e compromissos ambientais”, destaca Rubião.

Diante dos avanços tecnológicos, da busca por eficiência operacional e do fortalecimento dos combustíveis renováveis, o setor de petróleo e gás brasileiro se posiciona para enfrentar os desafios do cenário internacional e consolidar oportunidades estratégicas. A integração da inteligência artificial e de soluções digitais já demonstra impactos positivos na produtividade e na rentabilidade das operações, enquanto políticas públicas eficazes aceleram a transição energética. O desenvolvimento de combustíveis sustentáveis, impulsionado por incentivos e inovação, abre caminho para uma matriz energética mais limpa e diversificada. Ao equilibrar inovação, sustentabilidade e competitividade, o Brasil reforça sua relevância global no setor. Esse movimento é essencial para garantir a adaptação do país às demandas econômicas e ambientais do futuro.

Lilian Souza <lilian.souza@jeffreygroup.com>

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