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Pesquisa Embrapii avalia uso do cânhamo para reforço de papéis reciclados

As fibras dos caules e raízes apresentam maior resistência ao processo de reciclagem, permitindo mais ciclos para o reaproveitamento do papel


Um projeto de pesquisa investiga as propriedades físicas e químicas das fibras de cânhamo dos caules, galhos e raízes da cannabis para otimizar o potencial tecnológico dessas fibras, reconhecidas por seu comprimento e elevada resistência mecânica. O estudo é da Unidade Embrapii Departamento de Engenharia Florestal da Universidade Federal de Viçosa (UFV), em parceria com a startup Buds INC.

A pesquisa avalia o uso das fibras de cânhamo como reforço na produção de diferentes tipos de papel, com ênfase em papéis reciclados. A fibra de celulose convencional possui um número finito de ciclos de reciclagem e a cada novo reaproveitamento, as fibras se tornam mais curtas e frágeis, resultando em perda de resistência mecânica do papel.

O pesquisador da Unidade e coordenador do projeto, Marcelo Novo, explica que a ideia é processar a biomassa da cannabis integralmente. “A planta tem fibras de dupla aptidão: fibra longa na casca e fibra curta no lenho da planta. Essas características resultam em um papel reciclado de qualidade superior ao convencional, que usa somente fibras de celulose”, detalha.

De acordo com a Indústria Brasileira de Árvores (IBÁ) – associação responsável pela representação institucional da cadeia produtiva, do campo à indústria –, o Brasil processa anualmente cerca de 6,6 milhões de toneladas de fibras recicladas. O papel reciclado tem um 'prazo de validade' técnico: a cada ciclo, as fibras se quebram, perdem resistência e se aproximam do seu fim de vida. A adição controlada de fibras de cânhamo à polpa reciclada permite recuperar a resistência original do papel e, em alguns casos, alcançar propriedades mecânicas superiores àquelas do material inicial, ampliando significativamente sua vida útil e desempenho.

O projeto encontra-se na fase final de consolidação dos resultados mecânicos dos papéis produzidos com diferentes teores de fibras de cânhamo. Marcelo Novo destaca o grande potencial dessa inovação para o Brasil, um dos maiores produtores mundiais de papel e papelão reciclado. “Além de ganhos técnicos e econômicos, o uso de fibras de cânhamo como reforço representa um avanço importante do ponto de vista da sustentabilidade, ao aumentar a eficiência da reciclagem e reduzir a pressão sobre matérias-primas florestais tradicionais”, pontua.

Produção em larga escala

Com um método inovador de cultivo em larga escala, a pesquisa envolvendo a Embrapii e a startup Buds INC começou em fevereiro de 2024, após autorização da Justiça Federal. Em apenas quatro meses, as 14 sementes iniciais resultaram em mais de quatro mil mudas de alta qualidade.

O projeto recebeu um investimento total de R$ 932 mil, em valores corrigidos pela inflação. Deste montante, a Embrapii (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial) aportou R$ 307 mil. A pesquisa já resultou em um pedido de patente. Com amplo potencial de exportação, o método desenvolvido poderá ser utilizado por grandes produtores de cannabis em países como China, Estados Unidos, Canadá e também na União Europeia.

Gustavo Baesso, fundador da Buds INC, comenta a importância da parceria da Embrapii na iniciativa. “Foi fundamental e, sem isso, o projeto dificilmente sairia do papel. Como startup, pudemos contar também com a parceria do Sebrae. No final das contas, o aporte financeiro da empresa girou em 35%, no máximo”, reforça.

Mercado promissor

Recentemente, a Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) anunciou novas regras para a produção de cannabis medicinal, que estabelece normas específicas para cultivo, fabricação e comercialização de produtos derivados da planta no Brasil. “A regulamentação abrange a indústria, a produção comercial e a produção de associações. Praticamente tudo que eles determinaram a gente já faz: barreira física, controle de acesso, câmeras, rastreabilidade e destinação do produto final”, celebra Baesso.

A produção de medicamentos à base de cannabis gera grande volume de resíduos, pois somente as flores são aproveitadas. “O projeto garante que, após a colheita da flor, 100% do que sobra da planta, e que antes seria descartado, vire inovação tecnológica e riqueza para o país”, avalia o empresário.

Parceria Embrapii e Sebrae

A Embrapii, por meio da parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), oferece às micro e pequenas empresas e startups acesso à infraestrutura e a conhecimentos científicos e tecnológicos das Unidades Embrapii. Trata-se de uma rede de 90 centros de pesquisa de excelência credenciados em todo o país para desenvolver os projetos de pesquisa apoiados pela instituição. Juntos, eles reúnem uma rede de aproximadamente sete mil pesquisadores.

Para obter os recursos, as empresas devem apresentar seus projetos às Unidades Embrapii, que serão responsáveis pela aprovação do projeto e pelo repasse dos recursos. Esses centros são compostos por especialistas que desenvolvem soluções de acordo com as necessidades.

A Embrapii investe até 50% do valor total do projeto, sendo o restante coberto pela contrapartida da empresa e da Unidade Embrapii. Além disso, o Sebrae também aporta recursos financeiros, contribuindo com até 70% da contrapartida prevista para a empresa.

Embrapii <amandaguerra@corcovadoestrategica.com.br>

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