Economia circular começa no descarte correto
Duarte Produções -
Alguns materiais já apresentam índices expressivos de reciclagem no país. O alumínio chega a cerca de 99%, o vidro ultrapassa 75%
Gisele Barbin
Durante muito tempo, o plástico foi tratado como vilão ambiental. Mas essa narrativa simplificada ignora um ponto central: o problema não está no material em si, e sim no descarte incorreto e na ausência de políticas estruturadas de reciclagem e reaproveitamento. Quando bem utilizado, o plástico é um dos maiores aliados da economia circular. E o Brasil tem uma oportunidade concreta de avançar nessa agenda.
A sacola plástica, por exemplo, pode e deve voltar ao processo produtivo. Ela não é lixo: é matéria-prima. Quando descartada corretamente, integra cadeias que geram emprego, renda, inclusão social e reduzem a pressão sobre recursos naturais finitos.
Hoje, alguns materiais já apresentam índices expressivos de reciclagem no país. O alumínio chega a cerca de 99%, o vidro ultrapassa 75%, o papelão tem ampla recuperação e até o PET, antes visto com desconfiança, já é reincorporado em embalagens de bebidas e alimentos, com segurança técnica comprovada.
O plástico flexível, como sacolas e filmes, segue esse mesmo caminho. Tecnologias de reciclagem permitem que esse material seja coletado, lavado, triturado, transformado em grãos reciclados e reaplicado em novos produtos, como sacos para lixo e embalagens resistentes. Trata-se de um ciclo virtuoso que reduz extração de petróleo, consumo de energia e emissão de gases de efeito estufa.
A partir deste mês de janeiro, entra em vigor um novo decreto que obriga fabricantes de embalagens plásticas a incorporar 22% de material reciclado em seus produtos e a recolher parte do que colocam no mercado, fortalecendo a logística reversa. É um marco importante para o setor.
Na Extrusa Pack, essa não é uma adaptação de última hora. A empresa já recicla mais de 22% de toda a sua produção, possui unidades próprias de reciclagem e trabalha com material pós-consumo (PCR), adquirindo insumos de cooperativas parceiras. Ou seja, a indústria nacional já tem exemplos concretos de que é possível alinhar escala, qualidade e sustentabilidade.
Esse movimento também impulsiona a economia: cooperativas passam a ter dupla fonte de renda — pela venda do material reciclável e, em breve, pela negociação de créditos de carbono, que começam a ser regulamentados no Brasil.
Nenhuma legislação funciona sem educação. A coleta seletiva, quando bem orientada, muda hábitos, cria consciência e transforma comunidades. Separar corretamente o resíduo, lavar embalagens antes do descarte e encaminhar sacolas acumuladas para ecopontos ou cooperativas são atitudes simples, mas decisivas.
Foi dessa percepção que nasceu minha atuação no terceiro setor. Como diretora da ONG Cidade Verde, em Guarulhos, levamos educação ambiental a escolas e comunidades, mostrando de forma prática como o descarte incorreto contribui para enchentes, entupimento de bueiros e degradação urbana. Quando a criança entende o impacto do lixo, ela educa a família — e o ciclo começa a mudar.
A indústria também precisa inovar de forma responsável. Hoje, já existem sacolas e embalagens com conteúdo reciclado (PCR); bioplásticos de fonte renovável, como cana-de-açúcar, plásticos biodegradáveis e compostáveis, indicados para resíduos orgânicos e tintas à base d’água, que reduzem impacto ambiental e riscos ocupacionais.
Mas é importante deixar claro: nenhum material deve ser tratado como “licença para jogar no meio ambiente”. O objetivo da sustentabilidade não é a decomposição no bueiro ou no rio, e sim o retorno ao ciclo produtivo.
Precisamos abandonar a lógica do “descartar e esquecer”. O plástico faz parte da vida moderna. Já está nos hospitais, nos alimentos, no transporte, na segurança sanitária. O desafio não é eliminá-lo, mas usá-lo com responsabilidade, rastreabilidade e reaproveitamento.
Com legislação adequada, incentivo fiscal à reciclagem, educação ambiental contínua e indústria comprometida, o Brasil pode transformar um passivo ambiental em ativo econômico e social.
A economia circular não começa na fábrica. Ela começa na escolha diária de cada cidadão ao descartar corretamente aquilo que ainda tem valor.
Gisele Barbin, head de Vendas da Extrusa Pack
Isabel Braga é CEO da Closet BoBags e da BoGo. Ambas priorizam a Economia Circular e o aproveitamento, em respeito ao meio ambiente
Neide Martingo <neide@duarteproducoes.com.br>