BVRio realizou uma mesa-redonda interativa para discutir um dos principais entraves à implementação de soluções eficazes
BVRio News -
A desconexão entre o financiamento internacional e as iniciativas locais de recuperação de resíduos lideradas por comunidades.
Na véspera da abertura das negociações do Tratado Global do Plástico da ONU, A BVRio realizou uma mesa-redonda interativa para discutir um dos principais entraves à implementação de soluções eficazes: a desconexão entre o financiamento internacional e as iniciativas locais de recuperação de resíduos lideradas por comunidades.
O encontro reuniu representantes de diversos elos da cadeia de valor — entre financiadores, desenvolvedores de projetos, organizações internacionais e autoridades públicas — com o objetivo de avaliar como a plataforma Circular Action Hub (CAH), da BVRio, pode fortalecer essas conexões e viabilizar o acesso de projetos locais a recursos globais.
Pedro Moura Costa, diretor e cofundador da BVRio, conduziu o encontro e apresentou os serviços integrados da plataforma, que vão desde due diligence e rastreabilidade via o aplicativo Kolekt , até a verificação independente e registros públicos de impacto. Ele destacou a importância de garantir a credibilidade dos projetos, assegurar remuneração justa aos catadores e evitar dupla contagem de créditos por meio do Mecanismo de Créditos Circulares.
“Temos observado uma demanda crescente de empresas e doadores por iniciativas com comprovação real de impacto ambiental”, afirmou Pedro. “Nosso objetivo é viabilizar contribuições verificadas, orientadas por resultados, que vão além da conformidade e gerem impacto tangível nas comunidades. Não estamos apenas construindo uma plataforma, mas criando uma ponte entre necessidades e recursos, entre comunidades e sistemas, entre ambição e impacto.”
Os participantes apontaram diversos desafios operacionais, como a variação nos preços dos créditos de plástico e a escassez de financiamento para a infraestrutura básica de gestão de resíduos.
Frank Van Woerden, engenheiro ambiental sênior do Banco Mundial, mencionou as dificuldades de alinhar projetos comunitários aos mecanismos de financiamento nacionais, ressaltando a necessidade de apoio contínuo à operação, e não apenas investimentos pontuais.
Steffen Blumen, gerente de projetos da GIZ na Prevent Waste Alliance, destacou as grandes discrepâncias nos preços dos créditos de plástico, que podem variar em até dez vezes dependendo dos padrões de coleta e da origem do resíduo. Ele defendeu critérios mínimos e maior transparência na precificação, e elogiou o potencial do Hub para apoiar o desenvolvimento de capacidades em países que estão estruturando sistemas de responsabilidade estendida do produtor (EPR).
Allison Lim, vice-presidente de Assuntos Corporativos da Alliance to End Plastic Waste, reforçou a importância de financiar sistemas integrados de gestão de resíduos, que vão além da infraestrutura e incluem entrega de serviços e mudança de comportamento. Segundo ela, ainda que a infraestrutura seja mais fácil de justificar para financiadores, os custos operacionais contínuos seguem sendo um desafio — especialmente em contextos onde os governos locais ainda não estão familiarizados com modelos de financiamento sustentáveis.
A visibilidade dos projetos também foi um ponto levantado por representantes do setor privado, que sugeriram ferramentas de comunicação mais claras e componentes personalizados que ajudem nas estratégias de marca e nos relatórios de sustentabilidade.
Francesco Notari, diretor de sustentabilidade da Ogyre, pontuou:
“Relatórios de sustentabilidade são importantes, mas muitos financiadores corporativos estão cada vez mais atentos à visibilidade da marca. Precisamos de projetos com elementos sob medida, que permitam essa associação direta entre identidade da marca e as iniciativas que apoiam.”
Durante a mesa, Pedro também apresentou a proposta de criar um “Fundo Protótipo para o Plástico”, inspirado no Prototype Carbon Fund do Banco Mundial, que deu início ao mercado de carbono nos anos 2000. O objetivo seria reunir recursos de diversos investidores em um veículo coletivo de investimento, gerido profissionalmente, capaz de gerar impacto em escala.
BVRio segue nas negociações do INC-5.2 em Genebra
Com longa trajetória na promoção de soluções inclusivas para gestão de resíduos, a BVRio participa das discussões com o objetivo de fortalecer o reconhecimento dos catadores informais como parte essencial das estratégias globais de coleta e reciclagem, especialmente dos plásticos que já se encontram no ambiente.
A equipe de Economia Circular da BVRio — Maria Accioly, Pedro Moura Costa e Nastassia Romanó — participa ao longo da semana das negociações em Genebra, acompanhada por Thierry Sanders, diretor da Kolekt e parceiro da BVRio.
Nossa equipe leva à mesa sua experiência de apoio à regulamentação de EPR em oito países da Ásia, África e América Latina; mais de 12 anos de trabalho com cooperativas de catadores no Brasil, sul da África e Ásia; a criação do Circular Action Hub, o maior diretório mundial de soluções locais para resíduos com impacto social; e o desenvolvimento do app Kolekt, que conecta mais de 10 mil catadores ativos a compradores e recicladores.
Como observadora oficial das negociações, a BVRio também apresentou uma declaração formal, disponível na íntegra no site da ONU.
BVRio News <news@bvrio.org>