Quais os impactos do aumento da tarifa elétrica na indústria de alimentos e bebidas?
Informa Mídia -
Projeções do boletim Focus do Banco Central do Brasil apontam um reajuste médio nacional na faixa de 5% a 8%, refletindo diferenças de compra de energia, c
Por Manuel Vargas
A conta de luz sempre foi um dos principais desafios estruturais da indústria brasileira. Afinal, em um país marcado por encargos, tributos e subsídios embutidos nas tarifas, qualquer aumento nessa conta é reflexo direto de um conjunto de fatores estruturais do modelo energético. Para a indústria de alimentos e bebidas que, naturalmente, apresenta um alto consumo em refrigeração, processamento, transporte e armazenamento, é crucial que deixe de reagir aos aumentos e passe a estruturar melhor sua eficiência, de forma que não sinta danos severos em suas operações.
Projeções do boletim Focus do Banco Central do Brasil apontam um reajuste médio nacional na faixa de 5% a 8%, refletindo diferenças de compra de energia, custos de distribuição e passivos regulatórios. Isso não se trata de um evento isolado, mas sim uma consequência de toda a estruturação deste setor no país - uma vez que, por mais que tenhamos uma matriz relativamente limpa, ainda somos altamente dependentes de variáveis como hidrologia, despacho térmico e exposição a combustíveis fósseis, cuja volatilidade internacional impacta os custos internos.
Soma-se a isso, ainda, a presença de um modelo tarifário com forte repasse de encargos; judicializações e subsídios cruzados; baixa eficiência no consumo final, especialmente industrial; maior despacho de usinas térmicas (ligadas a combustíveis fósseis); pressões internacionais no preço do petróleo e gás; encargos setoriais acumulados; alto custo de expansão e manutenção da rede; e baixa modernização do consumo industrial em muitos setores.
Mas, indo além disso, existe um ponto ainda pouco discutido: o fato de que o problema não está apenas na geração, mas na forma como se consome energia. Na indústria de alimentos e bebidas, grande parte dessas empresas ainda opera ativos frigoríficos com sistemas superdimensionados; baixo controle fino de temperatura; falta de monitoramento em tempo real e manutenção reativa, o que amplia sua exposição ao aumento tarifário e abre margem para consequências de uma imprevisibilidade operacional.
Há uma necessidade urgente de modernização dessa infraestrutura, frente a um sistema que não apenas acaba se prejudicando, mas que também transfere tais ineficiências e riscos para o consumidor. Afinal, os impactos do reajuste tarifário vão muito além de questões financeiras – prejudicando, também, a competitividade industrial (reduzindo sua capacidade de investimentos e inovações); a cadeia produtiva (visto que o aumento no custo de armazenagem refrigerada impacta alimentos, bebidas e logística fria, pressionando preços ao consumidor); assim como toda a segurança operacional (já que, sem uma gestão eficiente, os aumentos tarifários levam a cortes mal planejados que podem comprometer a qualidade e segurança alimentar).
Empresas menos eficientes energeticamente também enfrentam uma maior exposição a metas de descarbonização e pressão de investidores que, atualmente, priorizam, fortemente, organizações pautadas na Agenda ESG. Pode parecer uma missão à longo prazo reverter esse cenário, contudo, muitas iniciativas estabelecidas desde já são capazes de aperfeiçoar a cadeia logística deste setor.
A realização de um diagnóstico profundo em cada indústria é o ponto de partida nessa jornada – afinal, sem dados, não há estratégia eficiente. Isso significa mapear o consumo real dos ativos frigoríficos, incluindo curvas de carga, picos de demanda, fatores de potência e perdas térmicas.
Os insights colhidos orientarão essa indústria nas melhores medidas de otimização inteligente dos ativos frigoríficos, que podem incluir controle automatizado de temperaturas por zona, ajuste dinâmico de compressores, monitoramento contínuo da eficiência, retrofit de componentes críticos e uso de variadores de frequência (VFD).
A gestão energética moderna também exige digitalização presente na captura e análise dos dados em tempo real, através de mecanismos de sensoriamento contínuo, algoritmos preditivos e indicadores de performance energética, por exemplo. E, para sustentar tais medidas a longo prazo, é importante compreender que a eficiência não pode ser uma ação isolada para enfrentar crise tarifária, mas precisa virar parte essencial da cultura operacional.
Sistemas frigoríficos inteligentes não devem ser encarados como um custo, mas como um pilar fundamental contra volatilidade energética. Com um investimento constante em tecnologia, monitoramento contínuo e os pilares ESG, muitas frentes inovadoras e eficientes podem ser descobertas e exploradas – enquanto as indústrias que insistirem em operar “no escuro”, certamente pagarão mais caro por essa escolha.
Manuel Vargas é fundador da Squair.
Nathália Bellintani <nathalia@informamidia.com.br>