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Verdades definitivas
Data da notícia: 11/3/2010

Por Redação ANDI Mudanças Climáticas
 

 

Talvez o maior avanço que a filosofia ou a teoria da ciência tenha alcançado em sua milenar caminhada pela história da humanidade seja a descoberta de que não existem “verdades definitivas” quando se está produzindo um discurso científico.

O entendimento equivocado de que a empreitada científica produz “verdades inabaláveis” levaria a uma conseqüência de proporções fortemente prejudiciais para a humanidade: o não-questionamento das teorias científicas que são cotidianamente elaboradas com o intuito de explicar parcelas específicas do mundo em que vivemos.

É exatamente a percepção de que a ciência trabalha com um conhecimento probabilístico e não definitivo que torna possível seu avanço. O seguido questionamento das teorias que continuamente se apresentam com o intuito de explicar a realidade – a possibilidade de falsear enunciados científicos prévios, como sentenciaria o filósofo de ciência austríaco Karl Popper – é fundamental para que o desenvolvimento científico possa ocorrer.

Não por outra razão, as discussões científicas vêm acompanhadas de alertas tais como “com um nível de certeza de 95%” – marca estabelecida por exemplo, pelos pesquisadores do IPCC para alertar sobre a certeza que seus estudos permitem quanto à contribuição humana para as mudanças climáticas. Isso indica que há (e sempre haverá) um espaço de incerteza, maior ou menor, relacionado a todo e qualquer conhecimento produzido no âmbito do universo científico.

Dogmas e verdades absolutas são atributos importantes de outros setores da atividade humana: a religião e a política. Membros de uma determinada religião não questionam afirmações tais como “Deus existe”. Duvidar do enunciado implica, necessariamente, abandonar a religião que sustenta essa verdade.

Participantes de determinada organização política não questionam proposições normativas como “todos são iguais perante a lei”. Uma vez acordada pela maioria, a regra deve ser respeitada. Entretanto, repetimos, é parte inerente da atividade fim dos membros do mundo científico questionar, constantemente, suas premissas, seus enunciados, suas proposições e conclusões – pois tal atitude compõe o coração das regras do jogo quando estamos no território das ciências.


A ciência e a política

Esses mundos idealmente separados se intercruzam o tempo todo. Os governos – o mundo da política –, não raro, se valem das conclusões provisórias da ciência para produzir políticas públicas.

Nesse sentido, as políticas públicas são construídas levando-se em conta um certo nível de incerteza. Em outras palavras, os governos assumem riscos quando se decidem por este caminho e não por aquele, mesmo quando estão baseados no que tantas vezes se chama de “sólidas evidências científicas”.

Amanhã – como muitas vezes já ocorreu –, a ciência, de posse de novas evidências e melhores instrumentos de pesquisa, por exemplo, pode falsear as teorias que até então eram tidas como as que melhor explicavam a realidade. Neste caso, os governos necessitam corrigir rumos nas políticas públicas adotadas previamente.

Mesmo assim, a Ética da Responsabilidade necessariamente reinante na atividade política, para nós nos valermos da expressão cunhada pelo sociólogo alemão Max Weber, exige que os tomadores de decisão adotem, tendo em conta um espaço de tempo curto, este ou aquele curso de ação em face das evidências mais ou menos pujantes que se apresentam. Às vezes, não é sequer possível esperar que o nível de incerteza caia para reduzidos 5%.

 

(Envolverde/ANDI Mudanças Climáticas)

 
 
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