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América Latina constroi outro capital energético


Data da notícia: 15/3/2010

Por Marcela Valente

Buenos Aires - A Argentina constroi sua primeira geradora elétrica solar na província de San Juan. O projeto prevê a fabricação de paineis fotovoltaicos para abastecer o resto do país e os demais sócios do Mercosul. O projeto argentino é pequeno. No México, avança um plano para chegar em 2012 com 25% da eletricidade proveniente de energias limpas e renováveis, principalmente eólica. E o Brasil incentiva o desenvolvimento de fontes como solar, eólica e maremotriz, que aproveita as ondas marinhas.

“A humanidade está em uma viagem sem retorno. Não podemos continuar dependendo de combustíveis fósseis porque são caros, acabam e têm custos altíssimos pelas emissões de dióxido de carbono que causam o efeito estufa”, disse ao Terramérica o presidente da empresa pública Energia Provincial Sociedade do Estado, Francisco Alcoba, de San Juan. Nesta província andina começa a construção da Usina-Piloto de Geração Fotovoltáica San Juan I que, com 4.898 paineis solares alcançará uma potência máxima instalada de 1,2 megawatts, a ser vendida ao sistema elétrico nacional interligado. Este país de aproximadamente 40 milhões de habitantes tem capacidade elétrica de 22 mil megawatts.

A Argentina “tinha projetos isolados de aproveitamento da energia solar mediante paineis em áreas rurais onde não chega a rede elétrica, mas a nossa é a primeira usina de produção do país e da América do Sul”, disse Alcoba. O governo de San Juan decidiu aproveitar as condições naturais da província, cujo céu é claro a maior parte do ano. Além disso, os solos de San Juan são uma fonte natural de quartzo de boa qualidade, de onde se extrai o silício, matéria-prima dos paineis solares.

No dia 5 deste mês, foi assinado o contrato de construção entre o governo provincial e a União Transitória de Empresas (UTE) Comsa Argentina - Comsa Espanha, ganhadora da licitação. As autoridades querem que este parque solar, na localidade de Ullum, se converta na base de um polo de pesquisa e desenvolvimento, podendo servir inclusive ao Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai). Um contexto legal nacional estabeleceu benefícios fiscais e outros incentivos para promover o desenvolvimento de fontes alternativas, com o propósito de fornecer 8% da demanda elétrica até 2016.

Como parte dessa política, está em andamento a licitação de projetos de fontes limpas. À energia solar foi dada uma quantidade não menor que 10 MW e, segundo Alcoba, já há ofertas por 22,5 MW para instalação também em San Juan. A Argentina marca uma tendência tímida mas firme em direção a uma produção mais limpa, que coincide com a Iniciativa por uma Economia Verde, lançada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) em resposta à crise financeira mundial.

O economista indiano Pavan Suhdev, que dirige esse programa no Pnuma, explicou ao Terramérica que os países precisam pensar no capital natural não como uma vantagem subordinada, mas “como uma complexa e valiosa infraestrutura ecológica que fornece bens e serviços à humanidade. A velha ideia dizia que a natureza nos dava recursos para a produção, mas também é uma fonte de serviços que nos permite ter ar e água limpos, evitar inundações ou secas e produzir energias renováveis. E se não cuidarmos desse capital não poderemos continuar produzindo esses serviços”, acrescentou.

Para a economista argentina Martina Chidiak, do Centro de Pesquisas para a Transformação, mais além do nome “economia verde”, na América Latina há muitos programas nessa direção, e um deles é o projeto fotovoltaico de San Juan. “Não se trata de reinventar a economia, mas de englobar em um conceito o que já fazemos”, disse Chidiak ao Terramérica. Ela e outros colegas latino-americanos preparam para o Pnuma um informe sobre uso eficiente dos recursos na região. “Prefiro falar de produção e consumo sustentáveis”, acrescentou, menos ambicioso do que “economia verde”, mas com o olhar em políticas de desenvolvimento mais integradas e coerentes, disse.

Por exemplo, na Argentina, enquanto se investe em energia renovável continuam os gastos de milhões de dólares com subsídios aos hidrocarbonos, afirmou Chidiak. “Isso revela uma desarticulação. Por esta razão, não bastam as energias renováveis. É preciso ter um programa coerente, e financiamento”, acrescentou. Chidiak afirma que Brasil e México avançam em políticas melhor coordenadas para enfrentar a mudança climática. Nesse contexto, lançaram projetos de aproveitamento de energias eólica, solar, de biomassa e também planejam fabricar a tecnologia necessária.

O economista Roberto Constantino, da Universidade Autônoma Metropolitana do México, disse ao Terramérica que seu país tem “interesse especial em conseguir sinergias entre o crescimento econômico e a economia verde, sobretudo por segurança energética e aumento da eficiência técnica na produção”. Isso explica os investimentos da Comissão Federal de Eletricidade na geração eólica na região do istmo de Tehuantepec, no sulino Estado de Oaxaca, disse.

No corredor do istmo, a capacidade eólica instalada é de 508 MW, contra 51 mil de potência instalada que possui este país de 107 milhões de habitantes. Na semana passada, o presidente Felipe Calderón inaugurou outro parque eólico, La Rumorosa, na cidade de Mexicali. A meta de Calderón é que 25% da eletricidade procedam de fontes renováveis até 2012, objetivo ambicioso para um país petroleiro que obtém 73% da eletricidade de centrais movidas a combustível fóssil, 22% das hidrelétricas e 3% das centrais nucleares. O México busca converter-se em líder latino-americano neste tipo de energia, afirmou o presidente.


Crédito da imagem: Imagebroker/Photo Stock


Legenda: Central fotovoltáica para geração elétrica.




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